9 de janeiro de 2008

Sardinhas e medicina

Os Sardinha são uma família de gente "rija", habituada ao ar do campo, à vida saudável, aos alimentos biológios e, como tal, pouco dada a doenças ou achaques.

Zé Sardinha costuma vangloriar-se de só ter sido observado por médicos em três ocasiões ao longo da sua vida: quando nasceu, quando foi à tropa e quando foi picado pelo peixe aranha... e, na verdade, quando nasceu não foi assistido pelo médico, mas sim pela Maria Arlete (ou Maria Parteira) e pelo marido desta que é "endireita".

Maria das Dores, pouco adepta de paracetamol e afins, recorre às mezinhas que aprendeu com as avós para curar todos os males. É famosa na aldeia por tirar o quebranto, sempre com resultados fantásticos, e por conhecer uns chás milagrosos para a espinhela caída e para o bucho virado.

Marco Paulo, frequentador mais assíduo do centro de saúde e do hospital mais próximos, leva já algumas visitas ao médico no currículo mas sempre devido a "acidentes" de percurso. A última aconteceu na passagem de ano, enquanto cantava no karaoke, um fã mais afoito decidiu presenteá-lo com uma garrafa de vinho espumoso... pela cabeça a baixo. Apesar do aparato, não foi grave e a cicatriz dá-lhe um ar másculo que as miúdas adoram.

Coube a Pamela Victória a responsabilidade de inverter um pouco a tendência da família. Um rastreio na escola levou-a a uma consulta de ortodoncia. O termo em si foi logo fonte de grande preocupação para os pais: "ortoquê?"... foi a reação de Zé. Passado o choque inicial, a união que caracteriza os Sardinha falou mais alto e rumaram, em conjunto, à cidade mais próxima para a tal consulta tão temida. Após algumas horas angustiantes de espera, regressaram à sua aldeia felizes com o novo aparelho de Pamela e com o facto de o rádio do automóvel, quase como por milagre, ter começado a captar todas as estações de rádio sem estática, especialmente quando Pamela sorria.

29 de outubro de 2007

A aldeia

A aldeia que a família Sardinha chama sua há várias gerações situa-se numa zona de serras e vales a cerca de 50 kms do litoral.

Segundo os últimos censos a aldeia conta com 347 habitantes aos quais se juntam 47 cães, 53 gatos, 27 ovelhas, 6 vacas, 1 boi, 4 burros, 14 porcos, 32 coelhos e 128 aves de capoeira.

É uma aldeia como tantas outras onde a fusão cultural se exprime na arquitectura, sendo que as casas antigas e tradicionais dão lugar a maisons tipo chateau com torreões redondos, correntes que prendem a habitação ao solo como se ela pudesse a qualquer momento levantar vôo, escadarias forradas a azulejaria verde e grená a contrastar com paredes a azul escuro e castanho, com estátuas e fontes entre couves, alfaces e rabanetes.

Não possuindo os confortos dos grandes meios, proporciona aos seus habitantes alguma qualidade de vida não só pelo ar puro e pela vida em contacto com a natureza, mas também pelas infraestruturas e serviços: a carreira para a cidade às Quartas, Sextas e Sábados, a feira local aos 23 de cada mês, o centro de dia para a terceira idade e a creche que disputam o espaço da velha escola primária recentemente encerrada, a tasca do Xico Manco, a mercearia e o café da Maria Canelas (a que os mais velhos chamam "venda da Maria"), o recinto para jogo da malha e o parque infantil junto da praça central e da igreja.

A igreja, situada bem no centro da aldeia, constitui o maior orgulho dos habitantes e é alvo de romaria. A devoção à padroeira local vem de tempos imemoriais e está na génese do nome da própria aldeia:

Diz a lenda que num ano de más colheitas agrícolas a população local enfrentou graves dificuldades e, não tendo conseguido aprovisonar alimentos para o Inverno, rapidamente se generalizou a fome. Num acto de desespero, o povo juntou-se e pediu a intervenção divina de Nossa Senhora. Foi então que se deu o milagre: a ribeira que atravessa a aldeia foi invadida por cardumes de fanecas. Estavam salvos! A fome foi saciada e o povo manifestou a sua gratidão eterna com a construção da igreja em honra de Nossa Senhora e do milagre das fanecas.

Foi assim que a aldeia passou a ser conhecida por Ribeira de Fanecas.

4 de outubro de 2007

A Família

O patriarca:

José Anacleto Borrego Sardinha, conhecido por Zé Sardinha, nasceu no ano da graça de 1958 no seio de uma família numerosa e modesta, sendo o último de 5 irmãos.

Zé Sardinha desde cedo revelou ser possuidor de uma inteligência acima da média da sua aldeia natal, tendo optado pela engenharia enquanto carreira académica. Foram largos anos de estudo, trabalho árduo e sacrifício mas infelizmente, por força das circunstâncias da vida, foi obrigado a desistir do sonho de se tornar engenheiro na quarta classe e nunca esqueceu a frase enigmática que a sua professora lhe dirigiu naquele que seria o seu último dia de estudante: "Estava a ver que nunca mais!"

Zé Sardinha é um homem simples, que aprecia as boas coisas da vida como: ir ao fim da tarde beber um traçado à tasca do Xico Manco e dar dois dedos de conversa com os amigos, ir passear com a família aos Domingos, ir à bola, deliciar-se com a gastronomia portuguesa, etc..

É um homem popular na sua terra pela sua dedicação ao lugar e às gentes e todos relembram com orgulho o dia em que deu o título de campeã à sua aldeia, vencendo o representante da freguesia vizinha, numa corrida de sacos que terminou com uma entorse e dois dentes a menos.

Não chegou a engenheiro mas sempre foi homem de trabalho, constituiu família e foi fazendo pela vida.


A matriarca:

Nasceu no ano de 1959, filha única de um casal de agricultores, de seu nome de baptismo Maria das Dores dos Santos Valente.

Os seus dotes para a música foram sempre muito apreciados tendo ficado conhecida, desde que integrou o rancho folclórico e etnográfico local, por "rouxinol da Ribeira".

Grande apreciadora de telenovelas e de séries em estrangeiro (como "Dallas") bem como de música popular portuguesa, considera-se pessoa de bom gosto e informada no que respeita a novidades neste campo.

Frequentou o sexto ano mas o apelo da música foi mais forte pelo que abandonou a escola para se dedicar exclusivamente à vida artística, integrando a digressão regional do rancho. Os tempos livres na sua juventude eram ocupados com o aperfeiçoamento de tarefas que viriam a torná-la no que é actualmente: dona de casa.

Mulher determinada e sonhadora, ainda não perdeu a esperança de um dia ir ao Brasil visitar os estúdios da Globo e de obter um autógrafo do seu ídolo da canção romântica/popular portuguesa.


O filho:

Nasceu no ano de 1980, numa noite de trovoada, permaturo de 6 meses, com 3.950Kg e 49 cm.

Marco Paulo Valente Sardinha, aluno aplicado, completou o 9º ano dias antes de festejar o seu 18º aniversário, época em que decidiu iniciar-se na vida activa aprendendo o ofício de bate-chapas na oficina do seu tio Marcolino.

Conhecido na aldeia pelas suas traquinices de juventude, como aquela em que com uma fisga abriu a cabeça ao padre Zacarias deixando-o inconsciente por vários minutos, hoje é respeitado e reconhecido profissionalmente como um dos melhores na sua área. É admirado por ter transformado o seu AX em 3ª mão numa autêntica relíquia que emite uma luz azul por baixo do chassis e que serve, quando o orçamento da paróquia é reduzido, de aparelho de som nas festas locais.

Faz furor entre as jovens da terra, aproveita os bailes da região para ir fazendo amizades e arrasa corações nas sessões de karaoke a interpretar still loving you dos Scorpions.

Grande apreciador de filmes de acção, possui uma vasta colecção de DVD que foi comprando na feira do mês. O seu sonho é ir a Hollywood e conhecer o Steven Seagal.


A filha:

Quando o casal menos esperava e por acaso do destino, para não lhe chamar descuido, no ano de 1995, a família ganhou um novo membro que hoje é a "luz dos seus olhos", a Pamela Vitória.

Pamela Vitória Valente Sardinha cedo revelou ser possuidora da ambição e da garra própria dos grandes líderes. O seu pai, com o peito a explodir de orgulho, chegou até a comentar com amigos: "a minha filha é a que chora mais alto na maternidade".

As suas capacidades vocais, certamente fruto dos genes maternos, já lhe valeram vários comentários como o do professor de música: "Pamela, é pianno, não é para berrar... e tens aí um microfone"; ou o do professor de educação física: "Pamela, sou eu que organizo a equipa e nada de protestos! Não quero aqui líderes sindicais".

Atenta às novas tecnologias, espera tornar-se uma especialista em informática, ou modelo, ou cantora, ou as três em simultâneo.

O seu sonho é ter um ter um leitor de MP3 e descarregar da internet as músicas dos seus ídolos .


O animal de estimação:

Piruças, um caniche arraçado de rottweiller, foi encontrado faminto à porta pelos Sardinha. A família rapidamente se afeiçoou ao canídeo de pêlo acastanhado com manchas escuras e ainda hoje relata, com admiração, o momento em que o animal, com uns banhos e menos uns quilos de parasitas, mudou para um pêlo de cor creme.

Não há nas redondezas um cão mais fiel aos seus donos e, com muita frequência, se vê envolvido em zaragatas por achar que a integridade física dos Sardinha, ou o seu património, estão em perigo... e que o diga a vizinha, a Maria Laurentina, que ficou com marcas dos dentes na perna esquerda quando tentava devolver uma dúzia de ovos que tinha pedido emprestada.

Os habitantes da aldeia conhecem-no por "abat-jour" ou "funil" por ser um animal atreito a otites.

É considerado pela família como mais um Sardinha e todos consideram que a sua casa não seria a mesma sem o Piruças.

Apresentação

Este é o diário da família Sardinha. Aqui relatar-se-á o dia-a-dia de uma família portuguesa genuína mas igual a tantas outras, pelo que qualquer semelhança com a realidade (não) será mera coincidência.